A primeira fase de um projeto de banco de dados

O projeto de banco de dados é, geralmente, uma das partes mais importantes no desenvolvimento de um novo software. Claro que existem softwares que nem usam bancos de dados, mas a grande maioria dos sistemas de informação consulta ou mantém dados armazenados em um banco de dados, por este motivo entender como um banco de dados é projetado e também saber criar um projeto de banco de dados é essencial na carreira de qualquer desenvolvedor de software.

Já dei uma visão geral sobre projetos de bancos de dados em um artigo anterior. Neste artigo vamos ver, com exemplos práticos, como executar a primeira fase de um projeto de banco de dados: A análise de requisitos.

Primeiro passo

A primeira coisa que se deve fazer é reunir dados relevantes para o novo projeto através de documentos existentes, realização de entrevistas com especialistas no negócio, etc. Esta etapa é muito importante, pois quando o projetista entende errado os requisitos, o projeto pode ser um fracasso. Nesta etapa deve-se gerar uma documentação descritiva, de forma breve, sem ambiguidades e que descreva bem como as coisas funcionam na realidade, uma descrição textual das regras de negócio.

Este texto sucinto que compila o entendimento das regras de negócio é conhecido como mini-mundo. E é mesmo um mini-mundo, pois é a partir da descrição das regras de negócio que desenvolvemos os modelos externos (que são representações gráficas do mini-mundo e devem ser entendíveis pelo usuário) e estes modelos não devem fugir da realidade descrita nas regras de negócio.

projeo de banco de dados

Exemplo de um mini-mundo

Vejamos um exemplo de dessa primeira etapa e uma descrição de regras de negócios para um caso fictício. Vamos tomar por exemplo um consultório odontológico básico. Para simplificar consideremos que este consultório é mantido por uma entidade social e não cobra diretamente dos pacientes, ou seja, no momento do atendimento este consultório apenas atende os pacientes sem se preocupar com pagamentos.

Primeiro eu me reuni com os dentistas, a secretária e o dono do consultório, realizei entrevistas onde fiz algumas perguntas sobre como é o trabalho deles e o fluxo de trabalho no dia-a-dia do consultório e fiz cópias de fichas de pacientes e alguns relatórios que a secretária faz para o dono do consultório semanal e mensalmente. Agora vou redigir a descrição do mini-mundo deste consultório para entendermos como as coisas funcionam no atendimento dos pacientes.

No consultório odontológico ‘Dentibão’, situado na rua ‘X’, nº ‘1’ na cidade ‘Y’, estado de MG (‘Dentibão’ só poderia ser de MG né? rsrs), as consultas funcionam por ordem de chegada dos pacientes da seguinte maneira: O paciente, ao chegar no consultório, obtém do atendente uma senha numérica de ordem crescente e aguarda até o momento de ser chamado.
O atendente chama os pacientes pela ordem das senhas. Inicialmente o atendente solicita o nome do paciente e procura a ficha dele no arquivo de pacientes (que está em ordem alfabética). Se o paciente ainda não tiver ficha no consultório, então o atendente solicita os dados básicos do paciente para criar uma ficha para ele, estes dados são: CPF, Nome, Data de nascimento, endereço e telefones.
Com a ficha do paciente em mãos, o atendente pergunta ao paciente o motivo da consulta, que geralmente é consulta de rotina ou dor de dente. Então o atendente cria uma ficha de atendimento com as informações de motivo da consulta, anexa à ficha do paciente e coloca em baixo da pilha de fichas para atendimentos do dentista. Neste momento o atendente diz ao paciente que espere que o dentista o chame, e finaliza o atendimento.
O dentista chama os pacientes pela ordem que o atendente organizou a pilha de fichas, mas antes de chamar cada paciente, o dentista analisa o histórico de atendimentos do paciente e o motivo que ele (paciente) descreveu para a consulta atual. Após atender o paciente, o dentista descreve detalhes do atendimento na ficha de atendimento, como diagnóstico, receita de remédios, solicitação de retorno, etc. Finaliza-se a consulta e paciente é liberado.

Modelos Externos

Descrevi acima um exemplo básico de descrição de regras de negócio. Agora vamos criar os primeiros modelos com as entidades e os relacionamentos desta descrição de mini-mundo. Estes primeiros modelos são conhecidos como modelos externos, pois devem ser de fácil entendimento por todos os envolvidos, não apenas os técnicos, ou seja, no nosso caso o dentista, o atendente, a secretária devem ser capazes de entender esses modelos e opinar o que condiz ou não com a realidade e o objetivo do novo banco de dados que está sendo projetado.

Para criar esses modelos iniciais podemos seguir uma dica simples: identificar substantivos e verbos potenciais no texto. Os substantivos podem ser Entidades e os verbos podem ser Relacionamentos.

Alguns substantivos potenciais para entidades: Paciente, Atendente, Dentista, Atendimento, Histórico de atendimento, Senha…
Alguns verbos potenciais para relacionamentos: Obter (Senha), Atender (atendente atender paciente), Atender (dentista atender paciente), Analisar (Atendimentos)…

Nestes modelos vamos adotar a notação mais utilizada para este fim, a “Notação de Chen”, também conhecida como MER (Modelo de Entidades e Relacionamentos) ou DER (Diagrama de Entidades e Relacionamentos). Nesta notação as entidades são representadas como retângulos e os relacionamentos como losangos. Vamos criar então, os primeiros modelos baseados na descrição acima.

Retorne ao texto do mini-mundo e leia o primeiro parágrafo.

modelo-paciente-senha

Acho que esse primeiro modelo tá entendível para uma pessoa leiga, né? Esse é o objetivo do modelo externo! Dá pra lê-lo como “O atendente fornece uma senha ao paciente”. Observe onde estão os substantivos e os verbos. Este modelo representa a primeira etapa do atendimento, quando o paciente chega ao consultório.

É importante notar que a ordem do atendimento não é importante para o modelo desta etapa, pois isso não diz respeito a dados e sim a lógica. Lembrando que o objetivo aqui é um projeto de banco de dados, não os requisitos de “funcionamento” de um sistema.

Vamos fazer mais um modelo para o nosso mini-mundo:

modelo-atendente-paciente

Deu pra perceber que um atendente “atende” um paciente e inicia a “Ficha de atendimento”? Beleza, então vamos ao próximo modelo:

modelo-dentista-paciente

Neste modelo dá pra ler que o Dentista “atende” o paciente. Certo? Também dá pra ler que o dentista “conclui” o Atendimento atual (iniciado pelo atendente). Além disso dá pra ler que o Dentista analisa os atendimentos anteriores, com essa última leitura do modelo, percebemos que a entidade “Atendimento” não representa só o atual, mas também os anteriores. Com essa interpretação, podemos concluir que para os atendimentos anteriores do paciente e o próprio atendimento atual, nem sempre era o mesmo atendente e nem o mesmo dentista. Captou a ideia?

Vamos juntar tudo?

modelo-entidade-relacionamento

Apareceu um relacionamento interessante quando juntamos tudo, um “paciente recebe atendimento”. Após montar o modelo completo eu senti falta desse relacionamento. Acho que agora qualquer um que olhar o modelo vai entender o processo inteiro. E se não estiver claro, o modelo deve ser melhorado! O modelo externo deve ser entendido “externamente” ao profissional de desenvolvimento de software, ou seja, deve ser entendido por qualquer um. O seu objetivo é ajudar todas as pessoas que estão participando do projeto do banco de dados entenderem a mesma coisa. Se você já tem um conhecimento de banco de dados, não pense em tabelas agora, o importante é todo mundo entender o cenário.

Conclusão

Vimos neste post como se inicia um projeto de banco de dados, desde a captação e organização de dados junto aos especialistas do domínio, até a análise e a criação de um documento e modelos externos que representam diferentes visões do mini-mundo.

Repare que criamos vários modelos, cada um representa uma determinada visão, visão do atendente, visão do dentista, visão geral, etc… Essa é a ideia, na fase seguinte do projeto nós começamos a aprofundar nestes modelos acrescentando informações

Espero que esse exemplo ajude a entender como os modelos podem ajudar na transferência de conhecimento entre o profissional que entende do negócio (no caso o dono do consultório), e os profissionais que trabalham no desenvolvimento de softwares. Acredite, esses modelos são de fundamental importância para o sucesso do banco de dados, pois uma falha na comunicação aqui, resulta em um banco de dados ruim lá na frente.

Pronto para iniciar um projeto de banco de dados? Qualquer dúvida, post aqui em baixo nos comentários!

A primeira fase de um projeto de banco de dados
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  • Leonildo Filgueira de Amorim

    muito bom!!

  • Olá! Antes de tudo, gostaria de agradecer pelos textos sempre úteis e de fácil compreensão! 🙂
    Você pode checar as imagens do post, por favor? Não consigo visualizá-las em nenhum navegador aqui.

    • Obrigado Gabriella.

      As imagens não estavam mesmo aparecendo. Acabei de arrumar.